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Diagramação

Como diagramar um livro (e por que o Word não serve)

Formato, mancha de texto, margens, entrelinha, fontes e fechamento de arquivo para gráfica. Por que diagramar no Word arruína o livro e o que um projeto gráfico profissional resolve.

Diagramação é a parte do trabalho editorial que o leitor nunca elogia e sempre sente. Ninguém termina um livro dizendo “que entrelinha agradável”. Mas todo mundo já abandonou um livro na página trinta com a sensação vaga de que “estava cansativo” — e, em boa parte das vezes, o problema não era o texto.

Por que o Word não serve

O Word é um editor de texto: foi construído para você escrever, não para produzir um objeto impresso. Ele não faz kerning fino, não controla adequadamente o espacejamento entre palavras em texto justificado, não trabalha com sangria, não gera marcas de corte e não gerencia hifenização com dicionário profissional.

O sintoma mais visível são os rios — trilhas brancas que atravessam o bloco de texto justificado, criadas pelo espaçamento irregular entre palavras. O olho as segue involuntariamente e se perde. O leitor não sabe o que está acontecendo; sente só que ler dá trabalho.

Ferramentas profissionais resolvem isso com composição parágrafo a parágrafo em vez de linha a linha, ajustando micro-espaçamentos invisíveis para distribuir o texto de forma uniforme.

As decisões que definem o miolo

Formato

No Brasil, 14 × 21 cm é o padrão de ficção, não ficção e negócios. 16 × 23 cm serve a obras técnicas e acadêmicas, com tabelas e notas. 12 × 18 cm atende bolso, poesia e edições compactas. 21 × 28 cm é para ilustrados, catálogos e livros de arte.

A escolha impacta diretamente o custo de impressão — formatos fora do padrão desperdiçam papel na folha da gráfica e encarecem a tiragem.

Mancha de texto e margens

Mancha é o retângulo ocupado pelo texto dentro da página. A regra que mais gente erra: as margens de um livro nunca são iguais dos dois lados. A margem interna, junto à lombada, precisa ser maior que a externa para compensar a parte da página que “some” na curvatura da encadernação — e ela cresce conforme o número de páginas do livro.

Margem inferior maior que a superior também é convenção antiga e funcional: dá apoio visual ao bloco de texto e espaço para o polegar segurar o livro.

Comprimento de linha

A faixa confortável fica entre 55 e 70 caracteres por linha, incluindo espaços. Linha curta demais quebra o ritmo da leitura com retornos constantes; linha longa demais faz o olho se perder ao voltar para o começo da seguinte.

Corpo e entrelinha

Corpo entre 10 e 12 pontos atende à maioria dos livros adultos. A entrelinha costuma ficar entre 120% e 145% do corpo, dependendo da fonte: tipografias com altura-x grande pedem mais respiro; as de traço fino pedem menos.

Tipografia

Para miolo de livro impresso, serifadas continuam sendo a escolha certa — as serifas ajudam a conduzir o olho pela linha em textos longos. Sans-serif no miolo é aceitável em livros técnicos com muitos blocos curtos, e em infantojuvenis para leitores iniciantes.

Os seis sinais de um livro mal diagramado

  1. Viúvas e órfãs. Uma linha isolada no topo ou no rodapé de uma página, separada do resto do parágrafo.
  2. Rios no texto justificado. Aquelas trilhas brancas verticais atravessando o bloco.
  3. Margens simétricas. Denuncia imediatamente que o arquivo saiu de um editor de texto comum.
  4. Título no pé da página. Abertura de seção separada do texto que ela apresenta.
  5. Hifenização errada. Palavras divididas em pontos que o português não permite, ou três hifens seguidos em linhas consecutivas.
  6. Páginas opostas desalinhadas. Com o livro aberto, as linhas das duas páginas não se correspondem.

As páginas que todo livro tem

O miolo não começa no capítulo 1. Um livro completo tem, nesta ordem: falsa folha de rosto, folha de rosto, página de créditos com ficha catalográfica e ISBN, dedicatória, epígrafe, sumário, o corpo da obra e, ao final, referências, agradecimentos e colofão.

Convenção importante: aberturas de capítulo caem sempre em página ímpar, à direita. Quando o capítulo anterior termina em página ímpar, entra uma página em branco — que é intencional, não erro.

O fechamento do arquivo

A entrega para gráfica não é “o PDF que eu exportei”. É um PDF com sangria de 3 a 5 mm em todos os lados; marcas de corte e de registro; fontes incorporadas ou convertidas em curvas; imagens em 300 dpi no tamanho final de uso; e perfil de cor adequado ao processo de impressão contratado.

Errar aqui significa, no melhor caso, o arquivo ser recusado pela gráfica. No pior, a tiragem sair com texto cortado na borda — e ninguém devolve dinheiro de tiragem impressa.

Regra de ouro: diagrame só depois de o texto estar definitivo. Cada alteração feita depois da paginação exige refazer as quebras de página do capítulo — e, se o número total de páginas mudar, a lombada da capa precisa ser recalculada também.

Dá para fazer sozinho?

Dá — do mesmo jeito que dá para cortar o próprio cabelo. Se o livro é um registro familiar em tiragem de vinte exemplares, o resultado provavelmente basta.

Se o livro é a peça que vai representar você profissionalmente por dez anos, a conta muda: a diagramação é uma das etapas mais baratas do processo e uma das que mais visivelmente separa um livro publicado de um arquivo impresso.

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