Se você já pediu orçamento em três lugares diferentes, provavelmente recebeu três números muito distantes entre si — e nenhuma explicação clara sobre o porquê. Isso não é falta de padrão do mercado: é que a maioria dos orçamentos não deixa explícito o que está sendo orçado.
“Editar um livro” pode significar cinco serviços diferentes, com preços que variam em cinco vezes entre o mais simples e o mais completo. Antes de comparar valores, é preciso comparar escopos.
A unidade de medida: a lauda
No mercado editorial brasileiro, trabalho de texto é orçado por lauda, não por página nem por palavra. Uma lauda padrão tem entre 1.250 e 1.500 caracteres com espaços, dependendo do padrão adotado pelo profissional.
Para converter: um documento do Word com 200 páginas em corpo 12, entrelinha 1,5, costuma dar entre 250 e 350 laudas. Você descobre o número exato do seu original em segundos — basta ver a contagem de caracteres com espaços do arquivo e dividir pelo padrão do profissional.
Por que lauda e não página? Porque página não significa nada. Um mesmo texto ocupa 180 ou 320 páginas dependendo da fonte, do corpo e da entrelinha. A lauda mede o texto de verdade — que é o que dá trabalho.
A segunda variável: o estado do original
Esta é a que mais pesa e a que quase nunca é explicada. Dois livros com o mesmo número de laudas podem exigir volumes de trabalho radicalmente diferentes.
Um texto escrito por alguém com prática, já lido por outras pessoas e revisado pelo próprio autor exige intervenção pontual. Um texto escrito na correria, com capítulos fora de ordem, ideias repetidas e parágrafos que precisam ser reescritos do zero exige três a quatro vezes mais horas — pelo mesmo número de laudas.
É por isso que nenhum profissional sério publica tabela de preço fechada sem ler o original. Quem publica está ou cobrando a mais de quem escreve bem, ou se preparando para pedir aditivo no meio do caminho.
O peso relativo de cada etapa
Tomando a revisão simples como referência: o copidesque costuma custar de 2 a 3 vezes mais, por envolver reestruturação e reescrita. A diagramação fica entre 1 e 2 vezes. Capa e publicação com ISBN costumam ser valores fechados, não por lauda. E o ghostwriting, por incluir a escrita integral da obra, fica entre 6 e 12 vezes o valor de uma revisão.
Os valores absolutos variam conforme o profissional, a região e o ano — mas a proporção entre eles se mantém bastante estável no mercado.
O que não entra no orçamento de edição
Três custos costumam surpreender quem está publicando pela primeira vez porque não fazem parte do trabalho editorial:
- Impressão. É contratada diretamente com a gráfica e depende de tiragem, formato, papel e acabamento. Em tiragens pequenas, o custo por exemplar sobe muito — é por isso que a impressão sob demanda existe.
- Ilustração e fotografia originais. Se o projeto de capa pedir imagem produzida, isso é orçado à parte com o ilustrador ou fotógrafo.
- Divulgação. Lançamento, assessoria de imprensa e anúncios são outro capítulo — e, para a maioria dos livros, o mais negligenciado.
Como comparar propostas sem se enganar
- Quantas rodadas estão inclusas? Uma única passada é muito diferente de duas rodadas com conferência de prova depois da diagramação.
- O trabalho vem com controle de alterações? Se você não consegue ver o que foi mudado, não tem como aprovar nem aprender nada.
- O que acontece se o prazo estourar? Escopo fechado protege você; cobrança por hora protege o prestador.
- Há leitura prévia antes do orçamento? Preço dado sem ler o original é chute — e chute costuma virar aditivo.
- Quem faz o trabalho é quem está falando comigo? Em algumas empresas, o texto é repassado a freelancers rotativos, sem continuidade.
O sinal de alerta mais importante: desconfie de quem elogia muito o seu original antes de ler. Elogio fácil na primeira conversa quase sempre antecede um contrato caro — e é a assinatura das chamadas “editoras” que cobram do autor. Editora de verdade paga o autor, não cobra dele.
Como reduzir o custo da edição do seu livro
Há três formas legítimas de gastar menos, e nenhuma delas envolve contratar mais barato.
1. Entregue o texto na melhor forma possível. Releia o original inteiro antes de enviar, corte o que você já sabe que sobra e resolva as repetições que você mesmo reconhece. Menos trabalho bruto significa menos horas orçadas.
2. Contrate na ordem certa. Copidesque antes de revisão, revisão antes de diagramação. Inverter a ordem gera retrabalho — e retrabalho é pago duas vezes.
3. Faça a leitura de diagnóstico primeiro. Ela existe justamente para você descobrir que talvez precise de menos do que imaginava. Muito autor chega achando que precisa de reescrita completa e sai precisando só de revisão.
Vale a pena?
A pergunta certa não é quanto custa editar — é quanto custa não editar. Um livro publicado com erro na primeira página, capítulos fora de ordem e miolo diagramado no Word não deixa de ser lido: ele deixa de ser levado a sério. E isso, para quem publica um livro como cartão de autoridade profissional, é o oposto exato do objetivo.
O livro dura décadas. A economia dura um mês.